Sex Shock I Élle de Bernardini

28.08.2019 - 21.10.2019

 

Élle, seu corpo é a nossa medida

 

É um trabalho de resistência: é difícil ser artista, é difícil ser artista mulher, é difícil ser artista mulher trans, é difícil ser artista mulher trans e estar inserida no circuito comercial e institucional. A produção de Élle de Bernardini enfrenta todas essas e outras questões incessantemente, propondo novos modelos de sistema e oferecendo soluções revolucionárias. A partir da pesquisa sobre formas contrassexuais (derivada das teorias queer do filósofo Paul Preciado), a artista cria séries que colocam em xeque o estatuto da simbologia das cores, as regras de comportamento do corpo, o fetiche sobre o objeto de arte, os tabus sobre sexualidades dissidentes, as lacunas da linguagem e as estruturas de poder.

 

“Sex Shock” é uma mostra que condensa essa extensa e infindável investigação em trabalhos cuja materialidade parece contrastar com a contundente carga política de seus discursos. O uso de materiais macios e atraentes – pelúcias, meia-calças, pérolas, ouro – e o emprego de cores fortes e cativantes sugere, de início, certa resistência às associações ao corpo combativo, ao enfrentamento de preconceitos, à luta por liberdade e libertação. Mas, em um segundo momento, se revela clara a estratégia de Bernardini de apelar para o toque, para a sedução, e assim despertar o interesse de saber, de aproximar, de valorizar, atribuindo auras de sagrado e de riqueza a assuntos cada vez mais considerados impróprios, imorais, indecentes.

 

Há diversas valências por trás do emprego da pelúcia: as peças podem ser infantis como brinquedos, luxuosas como casacos de vison, quentes como cobertores. Se alguns dos títulos de séries nos remetem a características físicas do corpo, como “Peludinhos”, outros são pensados como acessórios e aparatos de uso por esse corpo, como “Detail” – um colete para vestir – ou “Dois Pesos Duas Medidas” – um colar para usar. 

 

 

Essa implicação corporal na obra de Bernardini não se limita apenas ao trajar, mas inclui também o engajamento ativo do espectador na co-criação do objeto, como em “Do It Yourself”: matrizes de silicone que podem ser usadas para moldar, em resina ou gelo, dildos desenhados para diferentes áreas do corpo – basta seguir o manual de instruções ofertado pela artista e gozar do/com o trabalho.

 

Apesar das crescentes ondas de frieza, dureza e brutalidade, devemos lembrar que ainda temos pele, que ainda somos capazes de nos relacionar com o mundo por meio de trocas de calor, de fluidos, de afetos e fragilidades e, mais ainda, de criar novas peles que nos permitam contatos, prazeres, corpos outros. Esta exposição nos impõe a urgência de pensarmos as possibilidades de entender e usar nossos corpos, próprios e alheios, especialmente em tempos de apagamento de diferenças e rigidez dos discursos de controle, pureza, inocência e castidade em detrimento de liberdade, autonomia, gozo e ampliação de potências. 

 

      Julia Lima

Agosto de 2019

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