Quem tem medo de Lyz Parayzo? I Lyz Parayzo

28.08.2019 - 19.10.2019

 

 

O que normalmente testemunhamos no sistema da arte e o que envolve toda a sua legitimação no decorrer da história é o falocentrismo e o vigor de uma sociedade amparada pela lógica patriarcal e hetero-cis-normativa, onde tão-somente houve lugar para os papeis dicotômicos rigidamente rotulados.

 

Desobedecer essa “regra” e quebrar esses preceitos é propor alternativas para desestabilizar um mundo ainda situado em torno de tais códigos já manjados, defasados, pré-estabelecidos e, para dar visibilidade à sua produção, inicialmente, Lyz Parayzo, como putinha terrorista, invade os espaços consagrados de arte para “bombardeá-los” com a sua existência como artista, onde ela institui uma fissura naquilo que as instituições compreendem com um rigorismo que não pode ser dissuadido. Hoje, depois de tal estratégia, a artista já está inserida de certa forma em tal contexto, mas nem por isso se conforma com o funcionamento dele. 

 

Com humor cortante, Lyz Parayzo sacode esses princípios rígidos através de uma releitura do clássico texto “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” (1962) de Edward Albee para dar título a sua exposição que reúne releituras das esculturas clássicas de Lygia Clark iniciadas na década de 1960. Nessa relação entre um texto dramático e uma série de esculturas, Lyz menciona tanto a sua formação inicial em artes cênicas e, posteriormente, em visuais, como também a decadente classe dominante do meio acadêmico que produz pensamento e que legitima todo um sistema viciado ao citar Albee e, ao mesmo tempo, enaltece a voz feminina nas artes quando sugere e sublima a Clark. 

 

Sim, os tempos realmente mudaram! E, pensando na produção de armaduras, joias bélicas e objetos dentados como serras para justamente significar resguardo para os corpos ditos “desviantes”, que são condenados dentro de um contexto ainda conservador, já não é possível reforçar atributos conferidos ao masculino ou feminino e Parayzo sabe bem disso. Todos esses códigos se misturam e, então, mesmo pensando em artefatos agressivos ou decorativos, não supomos nas peças da Lyz, de um lado, homens cisgêneros viris, destemidos, valentes, musculosos, guerreiros e, de um outro, mulheres cis sonhadoras, frágeis, sensíveis e românticas. 

Há um enorme amálgama em sua tática de guerrilha e, através dos trabalhos expostos, Parayzo suprime a norma, rejeita o instituído, satiriza uma ordem edificada de forma mordaz nas suas proposições politicamente engajadas que afirmam subjetividades múltiplas para fora de uma construção social normativa. E quem tem medo de Lyz Parayzo é justamente tudo o que simboliza um passado derrotado por perder sentido, que hoje não pulsa favorável às incontáveis singularidades, mas que definha dia a dia quando insiste na hierarquização das nossas existências.

 

 

O tempo vem agregando, às obras que veiculam símbolos da cultura do consumo (desde a pop art, pode-se dizer), essa camada de significado adicional: a arte se torna arqueologia dos hábitos culturais de tempos remotos. Numa velocidade inaudita. O logo de hoje pertence ao museu etnográfico de amanhã. Mas aí também há outra inflexão importante: qual a relação dos artistas millennials com o tempo? O passado é seu banco de dados. O futuro? Este vai ser, no mínimo, melhor diagramado.

  

Tales Frey

Agosto de 2019

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