Agradecemos o seu alistamento na Academia de Anti-heróis!

 

Assim como o trabalho de João GG, a exposição Academia de anti-heróis é marcada por um citacionismo, uma acumulação de repertórios e termos que, estes também, carregam muitas camadas de significados.

Academia, por exemplo, nos remete à Academia de Platão, situada além dos muros de Atenas, fundada por volta de 380 a.C. e voltada à filosofia e à celebração de deuses, deusas e heróis. Outra ideia que vem à mente é o academicismo, que estipulou, a partir do século XVI, em Florença, uma série de normas para o ensino da pintura que logo se alastraram pela Europa e depois por todo o mundo ocidental (aqui incluindo o Brasil), e que perduraram até serem confrontadas com o que se convencionou modernismo nas artes visuais.

No entanto, a acepção aqui remete a algo como uma academia militar, que implica uma formação completa, tanto para o corpo como para a alma, por meio da qual os cadetes constituem um corpo único, moralmente elevado e íntegro, cultivando a defesa da pátria, mesmo que ao custo de suas próprias vidas. Um exemplo desse tipo de instituição é a Escola de Sagres, que possibilitou que os mares, povoados de monstros, se dobrassem aos portugueses e estes viessem a descobrir o Brasil em sua busca de uma rota para as Índias. Em uma academia militar, os cadetes aprendem rapidamente a importância de trabalhar em prol da coletividade, nutrindo valores mais nobres que as suas doutrinas individuais.

Pobres cadetes.

Pobres histórias de heroísmo.

Essa historinha é questionável, bastante questionável aliás, assim como o heroísmo é relativo. Mas o que hoje nos parece um conto de fadas colonial, ainda assim exercendo efeitos nocivos, serve para transmitir a ideia de uma narrativa épica pautada pelo heroísmo de uma pequena nação que se pretendia grandiosa.

E aqui chegamos em outro termo impregnado de história: o herói e, com ele, o herói problemático ou, simplesmente, anti-herói.

Costumamos remontar a ideia de herói aos mitos gregos e suas versões latinas. Heróis eram figuras nobres, elevadas, filhas de deuses com humanos que serviam de modelo para a sociedade. Nas tragédias, mesmo quando erram, tomados pela soberba ou pela desmesura (que os gregos chamavam de hybris), ainda assim os heróis são exemplares, pois se as suas virtudes servem de exemplo a ser seguido, os seus erros são cometidos para que ninguém mais os repita.

Heróis eram belos, virtuosos; eles representavam os valores de uma época e agem, via de regra, a partir de questões que superam motivações pessoais. Questões da ordem cotidiana são apenas secundárias e por vezes nem são mencionadas a respeito da vida de um herói. O poema épico ou epopeia conta os grandes feitos desses grandes homens, regidos por uma régua moral rigorosa, quase sobre-humana, em prol da comunidade.

Ao longo dos séculos, a noção de herói mudou. Vamos dar um salto até o herói romântico, da época em que reis e nobres perderam a sua força, e a burguesia dissemina os seus valores. No lugar do coletivo, a autonomia e liberdade individuais são as palavras de ordem. Esse novo herói não tem outra opção senão opor-se contra o mundo. Os deuses não estão mais dispostos a auxiliá-lo ou soprar sonhos salvadores em seus ouvidos, e ele só tem a si mesmo e o seu vazio existencial. Por vezes, vemos as suas fraquezas e vícios – questões banais, corriqueiras.

Dom Quixote é o melhor exemplo dessa transição. O engenhoso fidalgo, leitor voraz das novelas de cavalaria, vivia como nos tempos heroicos de outrora, guiado por sua involuntária inconformidade com o mundo. As suas convicções, vindas de um tempo de reis que já não existe, o fazem enxergar a realidade à sua própria maneira, e o seu fiel escudeiro está lá para deixar claro que tudo o que ele vê são gigantes em moinhos.

O Brasil é solo fértil de anti-heróis, por natureza contestadores e não raro marginalizados. Conhecemos passagens como “o herói sem nenhum caráter” – Mário de Andrade a respeito de “Macunaíma” –, ou “Seja marginal, seja herói”, frase estampada por Hélio Oiticica a respeito do bandido alvejado Cara de Cavalo. Talvez possamos incluir nesse espectro Macabeia, anti-heroína passiva de Clarisse Lispector que queria ser Marilyn Monroe e vivia um vazio dentro de si que só foi sanado pelo baque surdo da estrela de um carro importado. E se alguns morrem pelas mãos da polícia, “Meus heróis morreram de overdose”, diria Cazuza.

Heróis e anti-heróis povoam o nosso imaginário por meio do cinema de Hollywood e das animações da Disney. Na história em quadrinhos “Watchmen” de Alan Moore, acompanhamos o momento em que os super-heróis eram bem quistos por regularem uma cidade ameaçada pelo crime. Quando a ação dos super-heróis passa a ser proibida (cabe agora à polícia a tarefa de estabelecer a ordem), os super-heróis são jogados para a marginalidade. Assim nasce um anti-herói, fora da lei, que continua caçando bandidos por satisfação pessoal: seus valores não pertencem mais ao coletivo, pois saciam um ensejo individual.

Outro anti-herói famigerado é o extravagante Bandido da Luz Vermelha, que chegou a criar quatro personas de bandidos, cada uma com um estilo: uma delas tinha por hábito assaltar mansões paulistanas ostentando a sua lanterna comprada na Mappin.

Os heróis problemáticos nos fascinam porque os seus caprichos e fraquezas demasiado humanas por vezes nos soam como virtudes, mesmo que questionáveis, criando em nós identificação. Eventualmente, eu te encontrarei nesse front, dando aquele jeitinho na árdua batalha contra os boletos vencidos.

Anti-herói, seja bem-vindo(a). Agradecemos o seu alistamento para as nossas fileiras, mas vale uma advertência: o que você menos encontrará no seu treinamento são cenas de humanos exercendo seu anti-heroísmo. Você será confrontado(a) com fragmentos, vestígios de narrativas costuráveis ao seu bel prazer, e você mesmo(a) arcará com suas escolhas. Assim foi com Aracne, que fez as suas tapeçarias tão belas e provocantes causarem a ira de Atena. Em Passamanaria Ravel, a técnica protoindustrial da passamanaria, em declínio desde o século XVIII, é desviada de seu uso decorativo para aludir a esse mito narrado por Ovídio em “As metamorfoses”. Aracne, a tecelã virtuosa transformada em aranha, aparece no trabalho de João GG com os veios de suas mãos de madeira vertendo-se em tecido.

GG nos apresenta um quebra-cabeça de mitologias particulares em trabalhos em distintos formatos que mostram deidades, entidades que afloram em meio a pedras raras, bibelôs de sua narrativa pessoal e objetos sem pedigree, tudo misturado, provocando o nosso senso de valor. A soberba humana, que constrói a ponto de arranhar os céus em Janela Indiscreta, pode ao mesmo tempo ser uma reunião de condomínio de uma Babel com um síndico enfurecido. E essas labaredas? Seriam um atentado explosivo ou são fogos de artifício em um réveillon em Copacabana? A janela trincada mais se parece com um trompe l'oeil, então fica a dúvida.

A escolha do artista por blocos de gesso e pelo afresco nos remetem ao repertório, às cores e às diagonais dinâmicas de um Giotto, ao mesmo tempo que vemos mitologias contemporâneas e sensacionalistas que dialogam com videoclipes de Lana del Rey (D'Atena para Giotto). Haute cuisine servida em buffet a quilo. Em Entourage não nos é oferecido o jantar, mas as suas sobras talvez provenham de uma família quatrocentona que ainda ostenta, orgulhosa, seus talheres de prata.

E então aparece em Curupira Galego uma iminência ruiva, sorrateira e especular: seu cavanhaque é alaranjado – uma possível miscigenação entre indígenas e bárbaros colonizadores –, ou essa mecha rubra é somente metáfora para a sua piromania protetora das florestas? A lenda desse trickster dos trópicos percorre o caminho inverso da colonização: o curupira, inicialmente perambulando pela Amazônia, desce pelo Araguaia rumo ao Centro-Oeste. Mas nem sempre o nosso anti-herói quiçá galego sucede e então vislumbramos, como em Faz calor em Fiztcarraldo, um Pantanal ou uma Amazônia estéreis onde, décadas antes, Fitzcarraldo desbravou mata densa para conduzir sua nau absurda até o coração da selva em busca da borracha.

Outro aspecto desses afrescos é que eles contêm mais de um plano de representação. Sua aparente simplicidade, como se víssemos um fragmento de cena chapada onde o que está mais embaixo é o fundo do mar e o que está mais acima é o céu, por vezes se mostra incompreensível se não pensarmos que a mesma composição é, simultaneamente, também a vista de um drone comandado por um helicóptero, pilotado por paparazzi ou por um Zeus entediado. Em uma Batalha Naval, esse tipo de representação sobrepõe, no mesmo plano, o tabuleiro com os meus navios e o tabuleiro no qual eu arrisco onde estão os seus navios, adversários, de modo que nada encerra apenas o que apreendemos em uma primeira mirada.

Cada bloco é um amálgama de elementos, um repositório de camadas de materiais distintos nas quais sugestões narrativas se acumulam sem se anular. Temos muitas vezes paródias – no sentido de um diálogo com outra obra –, mas paródias apolíneas, por vezes autoirônicas. E ainda assim, resultam em ícones.

A informação a seguir pode não ajudar em um primeiro momento, mas a Disney quase faliu por ter destinado tantos recursos a “Fantasia”, até hoje a sua obra prima. Essa aposta kamizake na arte está representada em Adorador do Rei e é do mesmo grau de sacrifício que os cavaleiros de bronze de “Os Cavaleiros do Zodíaco” faziam ao oferecerem seu próprio sangue para que suas armaduras se regenerassem após as batalhas.

Existe ainda referência, Em desabalada carreira, à obsolescência e à evolução dos meios de representação ao mesmo tempo; não tanto à obsolescência programada dos nossos smartphones, mas ao próprio ser humano, obstinado em criar um ambiente altamente tecnológico, hostil a si próprio. Todas essas peças de gesso poderiam estar penduradas nos vastos salões de um castelo mal-assombrado, num Chateau Terrible que povoa nosso repertório de crianças vidradas em desenhos, videogames e animes. Mas não nos é dado saber, apenas especular o que pode haver no interior desse castelo hermético, atemporal e decaído, erguido sobre ideais inalcançáveis.

É nesse universo fragmentário e ominoso que lhe convocamos a projetar seus anseios, angústias e expectativas, para finalmente ser agraciado(a) com o merecido título de anti-herói.

João age um pouco como Sid, o vizinho malvado da casa ao lado de Toy Story, que brinca de destruir e remontar brinquedos, desfigurando-os para formar uma nova figura; procedimento não muito diferente daquele que os gregos faziam ao emprestar partes humanas a corpos de touro. Isso tudo faz muito tempo, mas também foi ontem. Talvez o garoto não fosse assim tão cruel, mas a história nos contou que ele era e nós, ingênuo(a)s embriagado(a)s de fantástico, acreditamos. Era uma vez um artista chamado João GG que pensou em criar um misto de túnel de terror com sala de espelhos para adulto(a)s, e você agora faz parte disso.

Diego Mauro 
Novembro 2020