Atrito
28.02-28.03.2026

Atrito

Daniel Mello 28.02-28.03.2026
Texto Crítico: Thierry Freitas

A prática de Daniel Mello (Joaçaba, SC, 1992) se estabelece a partir de um genuíno interesse em experimentar como superfícies bidimensionais podem ganhar corpo e volume. Para isso, ele mobiliza procedimentos que vão do acúmulo de matéria, depositada em abundância sobre os planos, à ocupação físico-espacial que a junção de diferentes objetos (em sua maioria placas, tapumes de rua ou tecidos) é capaz de gerar.

Nesses dois modos de ação aparentemente dístintos – já que um se aproxima do campo da pintura e o outro da instalação – há um ponto em comum: o interesse por suportes que escapem à neutralidade ou que evidenciem a agência do tempo. É frequente, por exemplo, que as madeiras com que trabalha provenham de refugos industriais, assim como placas e tapumes sejam também recolhidos das ruas, deixando à vista as marcas de uso. Mesmo os tecidos de algumas telas carregam a sujeira ou vestígios de tinta do ambiente do ateliê.

Há muito tempo Mello dedica-se a investigar as possibilidades plásticas da tinta em seu cerne, fabricando artesanalmente os bastões oleosos com que trabalha. Isso lhe permite controlar a densidade, o brilho e a opacidade da cor. A pintura feita com bastão traz consigo características marcantes, decorrentes sobretudo da dispensa do uso de intermediários como o pincel. Com o bastão, surgem composições realizadas a partir da fricção, do atrito reiterado que deposita o pigmento diretamente sobre o suporte. O bastão oleoso é um corpo contra a superfície. Seu rastro, de linhas densas e irregulares, adquire um caráter especialmente sensorial e imersivo nas pinturas de grandes dimensões, formadas por riscos, acúmulos de massa e amplos campos de cor.

Assim nasce o expressivo conjunto de pinturas matéricas que forma a maior parte de sua produção. Nelas, a superfície chega a ser totalmente recoberta de pigmento, sobretudo tinta a óleo. Esses estratos quase ocultam o suporte por completo, mas, a seu modo, dão continuidade ao empenho do artista em trabalhar a partir de um fluxo temporal estendido e dilatado, no qual cria camadas de pintura para, então, soterrá-las sob outras.

Sua pintura, em uma espécie de arqueologia reversa, é construída por meio de estratos cromáticos vibrantes que, mesmo encobertos por sucessivas sobreposições de tinta, conseguem emergir e ressoar com protagonismo na composição. Para além de uma experimentação compositiva, trata-se também de uma relação de engajamento com o própriofazer pictórico, na qual o uso expressivo da cor busca produzir tanto harmonia quanto acentuações, dissonâncias e contrastes.

Longe de buscar a superfície lisa ou a resolução harmônica plena, Mello investe na tensão como motor do trabalho, fazendo da pintura um espaço onde a matéria, o tempo e o gesto se entrelaçam de modo indivisível e irreversível.

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