Uma noite de amor com Eros e Tânatos no inferno
04.04-06.06.2026

Uma noite de amor com Eros e Tânatos no inferno

Randolpho Lamonier 04.04-06.06.2026
Texto do artista: Randolpho Lamonier

Escrevo no escuro, é madrugada. 

Vivo em uma cidade tatuada de neons, uma cidade que não dorme e nem tem pena de ninguém. Tenho como cúmplice a noite, pois o que busco agora habita o mundo das trevas e da inconsciência:  

O amor dos monstros e dos bichos selvagens.

 

1998, Contagem, Minas Gerais. Fiz a primeira comunhão na paróquia de Santa Luzia. Na fila para receber a hóstia, meu coração palpitava. Me disseram que se eu comungasse em pecado a hóstia se transformaria em sangue dentro da minha boca. Poucos dias antes, durante a confissão, omiti do padre que eu havia assistido na TV “O advogado do diabo” e que, quando o moço (Keanu Reeves) estava em cena, minha barriga ficava gelada e meu pintinho duro. Por um milagre de Deus, ou do Diabo, passei ileso pelo teste da hóstia, mas no meu íntimo, a culpa e a autocensura me torturavam.

 

Eu vivia na periferia de uma cidade industrial, em uma comunidade de operários. Naquela terra, ninguém se safava da violência. Estávamos todos sob o domínio de alguém: os trabalhadores, subjugados pelos patrões; as mulheres, pelos homens; as crianças, pelos adultos; e os não-brancos pelos brancos. Diante da escassez e do desamparo, a força bruta não era apenas uma forma de linguagem, era um modo de sobrevivência e de manutenção da vida.

 

AR DE ARESTAS, MONÓXIDO DE CARBONO:

No chão de fábrica, trabalhadores constroem máquinas automotivas, aparelhos eletrônicos, complexos siderúrgicos. 

Das montanhas, arrancam minério de ferro, ouro, zinco, bauxita e nióbio. 

 

1995, SESSÃO DE DOMINGO NA TV:

Assistíamos em casa à reprise de “RoboCop”. Na história, um policial morto em combate é transformado em ciborgue por uma megacorporação que o aliena de sua identidade e de suas memórias.

Fragmentado e submetido a cumprir seu dever, Robocop luta para impor a lei em uma cidade devastada pelo crime e pela corrupção corporativa. 

No sofá de casa, vidrados pelas cenas de ação, nenhum de nós percebia qualquer relação entre a Contagem onde vivíamos e a Detroit distópica do filme, arrasada pela indústria automobilística meio século antes de nós. 

AINDA EM 1995, os Mamonas Assassinas lançaram o hit “Robocop Gay”, que se tornou mais um apelido dado a mim na escola.

 

  1. Contagem. Aos quatorze anos, eu havia há pouco descoberto o sexo. Odiava a escola, todas as pessoas e, acima de tudo, a mim mesmo. Mas a chegada da adolescência me trouxe uma nova chance. Fiquei surpreso e excitado quando descobri que os adultos passaram a me desejar. Abandonei completamente a igreja, mas a culpa e um medo difuso d’Ele ainda me dominavam. Estranhamente, a certeza de minha condenação ao inferno representou naquele momento uma espécie de libertação. Crente de que eu teria, cedo ou tarde, que pagar pelos meus pecados, decidi que eles então deveriam valer a pena.

 

Raivoso e perdido, eu caminhava com pressa de um shopping a outro, sem nada na cabeça além dos meus sonhos. Antes de aprender a ser gente, eu aprendi a ser cliente, e o shopping center foi o primeiro lugar social onde me senti minimamente seguro e respeitado, embora o meu poder de compra alcançasse apenas os sorvetes de casquinha do McDonald’s. Eu ia assim, de uma lanchonete a outra, de um shopping a outro, consumindo sorvetes e pessoas. Levava na mochila os meus cadernos quase vazios das aulas que eu sempre matava, e rabiscava neles os meus desenhos feios, os meus segredos criptografados – Meus diários de fast-food, que tempos depois eu queimei para esquecê-los.

 

Preso no submundo da solidão e da vergonha, eu não me sentia capaz de acessar, por mim mesmo, a porta de saída, embora houvesse vida fora dela e eu fosse consciente disso. Mas me faltava a capacidade de romper, sozinho, dois mil e poucos anos de condicionamento.

Porém, se, sendo inapto a ser mais, o jeito fosse ser menos, o meu desejo, por sua vez, sempre foi superlativo. É também por isso que a minha linguagem ainda precisa ser maximalista, pois, embora eu me esforce, nunca encontro uma tradução justa que alcance a intensidade com que os afetos me atravessam. 

Se o outro e eu somos separados por uma inevitável opacidade, nosso encontro só pode então existir na ruptura.

 

Na escolinha da burrice, em algum momento eu aprendi:

– Que no cataclismo social a ignorância é um álibi

– Que o corpo é um campo de batalha

– Que o sexo é um jogo de competição e que, dependendo de onde for praticado, é também um esporte de velocidade

– Que se eu alcançasse o auto controle, eu eliminaria a ansiedade

– Que a razão dorme enrolada no medo

– Que o BEM vence o MAL

 

Porém, muito depois, entendi que:

– De tanto pensar, desaprendi o corpo

– A luz não cura, apenas delata

– Os humilhados serão humilhados e os exaltados serão exaltados

– Não tenho controle sobre nada, nem mesmo sobre o que desejo 

– O mundo é rato, mas é o que tem pra hoje

– O inferno é aqui mesmo

 

Como fui forjado sob o paradigma da força bruta, desenvolvi nervos de aço e ossos fortes, sempre prontos para lutar ou correr. E em relação aos meus sentimentos selváticos, aprendi a cavalgá-los segurando firme e me deixando ser levado. 

Quem já montou uma besta sabe que o segredo é não se deixar cair dela. E sem nunca temê-la, pois é aliando-se a ela que se aprende a arte da montaria.

Com a violência pura, só se pode falar em linguagem pura e violenta. E é assim que os bichos selvagens amam-se uns aos outros: DILACERANDO-SE. Uma besta montada na outra manifesta seu amor sincronizando ambos os pulsos, dois corações ferozes, batendo juntos a mesma ruína. 

Assim tenho lidado com os meus piores sentimentos, admitindo-os. O primeiro passo é esse, enxergar a besta. O segundo passo, dar-lhe um nome próprio. O terceiro e mais difícil: AMAR A BESTA TAL COMO ELA É.

 

Chamada de emergência, 192: Precisamos nos apressar antes que tudo, tudo, tudo se acabe de vez, pois disseram que o fim está próximo, não é? Estão dizendo que sim. Porém, nos valeria descobrir a quem interessam as narrativas de uma inevitável hecatombe e por que o apocalipse já nos parece mais razoável do que crer na possibilidade de uma mudança geral de paradigma. Eu mesmo, há bem pouco tempo, já me preparava para o pior. Criei até uma partitura para dançar o fim do mundo. Mas algo mudou em mim e eu ainda não entendi o que foi. Uma hipótese bonita: sustento a minha fé no futuro porque cada geração aprende e avança em algo que a anterior não conseguiu. Uma outra hipótese, essa meio egoísta: Não posso aceitar que este mundo acabe sem que eu antes tenha encontrado um grande, verdadeiro amor. Mas então me lembro que meu próprio fim pode não tardar. E logo, o sonho do grande amor ganha a forma de uma chamada de emergência que faz meu coração palpitar em contagem regressiva rumo à extinção.

 

Contagem, algum momento dos anos 90. 

Estamos na casa de uma tia e eu peço a ela para assistir a MTV, já que no meu bairro, sem antena parabólica, o sinal não chegava. 

Estamos todos na sala quando, do nada, uma moça (Madonna) aparece quase pelada dançando uma música (Erotica) que, segundo minha tia, o próprio Demônio devia ter escrito. Trocaram de canal imediatamente – mas eu em silêncio, já estava absolutamente transformado.

Essa foi uma das primeiras vezes em que me identifiquei com o MAL, sem que isso me causasse culpa. Descobri naquele instante que aquela era a vida que eu queria ter: dançar pelada na TV. Em preto e branco. Uma música escrita pelo próprio Demônio.

 

É tarde da noite, é quente e vermelho. Para merecer o inferno de onde eu falo, tive que aprender primeiro o amor fraterno – esse foi o grande presente que a vida me deu. E esse é um amor que nunca me assustou. 

 

Transei com dinossauros, crocodilos, carros de corrida e tanques de guerra. O sexo performático gera impulsos orgásticos de disruptura e aniquilação. Não é propriamente ruim — na verdade, pode ser muito bom. Mas descobri, quase tarde, que radical mesmo é amar uma pessoa.

O AMOR É O VERDADEIRO HARDCORE, já escrevi isso em outra parede, mas preciso me repetir para não esquecer.

 

No ano passado, quase amei um homem. E, embora não tenha dado exatamente certo, a experiência me ensinou um pouco do tanto que me resta aprender. Me falta ainda coragem, isso é fato. Eu, o mais bruto de todos os monstros, ainda tenho medo de olhar nos olhos de um homem e me assusto se alguém chega perto demais.

 

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