A TERRA, A PÓLVORA,
O CEDRO E A FLORA
Não foi na primeira, nem na segunda, nem na terceira tentativa que a comunidade de Canudos foi liquidada. Em junho de 1897, com a quarta expedição, a calamitosa luta entre os conselheiristas e as tropas federais entrou em sua etapa decisiva. O alvo era o povoado baiano formado em 1893 sob a liderança do cearense Antônio Conselheiro. Por ele nomeado Belo Monte, o arraial se tornou uma espécie de terra da promissão, heterotópica e autossuficiente, em torno da figura messiânica de “Bom Jesus”. Vista pelos fiéis como um horizonte de bem-estar coletivo, congregava um crescente de seguidores por não se fundar nos poderes da propriedade privada, da Igreja e da Justiça, representados pelos donos de terras, padres e delegados.
A autonomia do arraial se sustentava em práticas de sobrevivência próprias de povoados distantes dos centros de poder: subsistência agropecuária, comércio local e dedicação comunitária. Na capital federal, no Rio de Janeiro, ainda se consolidava a República após o golpe de Estado conduzido por setores do Exército e da elite cafeeira, descontentes com o abolicionismo e com as medidas econômicas recém-implementadas. O novo regime buscava afirmar seus princípios fundadores e estender sua autoridade sobre o território nacional com repressões a modelos de organização que escapassem à sua lógica.
Igor Vidor, artista cuja pesquisa conecta a violência do presente ativo às reminiscências de seu passado, encontra nos eventos que constituíram o Brasil República analogias com as disputas atuais no país. Ao se debruçar sobre o massacre canudense, investiga também a semântica dele derivada e apropriada pela capital: a favela – antes morro em Canudos, antes flor da caatinga. Ponto de partida de sua investigação artística, a favela orienta um estudo visual que se detém sobre a segurança pública armada pelo Norte Global, as milícias no Rio de Janeiro, a morte de jovens marginalizados e as relações entre tráfico de drogas, figuras públicas e instituições de poder. Em razão do estreitamento político, Igor Vidor obteve asilo na Europa, onde, pela primeira vez, deparou com o armamento fabricado pela indústria Mauser (o fuzil M94) customizada para o Exército brasileiro: a mesma arma usada pelas tropas republicanas em Canudos e que, ao longo dos confrontos, foi capturada pelos conselheiristas.
Atento aos proveitos formais dessas informações, o artista faz uso da pólvora para imprimir topografias, silhuetas de construções urbanas e formas da fauna por meio de sua fixação e deflagração em suportes de terra e madeira. Em movimento inverso, revela fotografias e documentos em variadas composições de terra, aplicando-lhes água, cuja quantidade altera a tonalidade da superfície. Nessas imagens, articula períodos e localidades distintos que, cada qual a seu modo, guardam relação com Canudos. As composições remetem aos aparatos historicamente usados para apreender a existência dessa população: a midiatização publicada, os acervos de museus regionais e internacionais e os registros fotojornalísticos de Flávio de Barros, todos amarrados pelas fotografias vernaculares realizadas pelo próprio artista em suas sucessivas idas ao Parque Estadual de Canudos.
É importante notar que Vidor recorre à linguagem fotográfica, tão associada ao registro do real, para apelar ao seu valor como documento e estudar as lógicas da memória e a produção de certas ausências. O objetivo, nesse caso, é uma reintrodução visual do arquivo sobre Belo Monte, aquém do retrato feito pelos jornais sudestinos, nos quais seus habitantes eram descritos como “arcaicos” por sua religiosidade católica ortodoxa, pela reverência à monarquia e por seu modelo fiscal, jurídico e administrativo. Esse enquadramento sustentou a narrativa forjada pela República para conter a experiência canudense, vista como perniciosa, mobilizando termos como “jagunços” para demarcar a hierarquia e o distanciamento entre a modernidade urbana e as representações estigmatizantes projetadas sobre o sertão nordestino.
Por esse motivo, Vidor aplica a metáfora dos vaga-lumes de Didi-Huberman por meio de fotografias intermitentes, capazes de tocar nos pontos luminosos que restam da formação conselheirista e dos mecanismos que arquitetaram seu desaparecimento. Essas imagens são emolduradas em cedro, como indicativos do estopim da guerra contra Belo Monte. O conflito armado foi instaurado um ano antes do massacre, durante a construção da igreja, quando a comunidade encomendou madeiras nobres em Juazeiro e pagou antecipadamente pelo material. Sem receber os cedros e diante da falta de informações sobre a entrega, os canudenses ameaçaram se deslocar até a cidade para buscar o material à força. Temendo o boato de invasão, as autoridades locais solicitaram tropas ao governo baiano.
A Igreja Nova de Bom Jesus jamais foi concluída, mas, até a sua destruição completa, manteve-se resiliente, por causa do desenvolvimento bélico dos conselheiristas – fruto do desarmamento do Exército e do contato com armamentos de uma indústria militar europeia – combinado ao conhecimento sertanejo das vicissitudes geológicas e climáticas do sertão. Fuzis Mauser, canhões Krupp e Whitworth eram alimentados pelo arsenal natural: o salitre que produzia a pólvora negra, os seixos rolados e as pedras arredondadas convertidas em projéteis formavam um depósito inexaurível de balas.
Essa confluência impôs às sucessivas tentativas de massacre uma desproporção inesperada, avantajada pela tecnologia social intrínseca ao território. Nas ramagens de espinhos e nos desvios do sertão, expuseram-se as linhas abissais construídas pelo Sudeste, que fraturavam cultural, social e economicamente o território nacional. Como nas escrituras de Euclides da Cunha, a caatinga, ao aparelhar-se “para reagir contra o regime bruto”, cruzou a aridez em vida latente até transfigurar-se “entre os deslumbramentos da primavera”¹, revelando que “o sertão é um vale fértil. É um pomar vastíssimo, sem dono”².
A ideia de “terra sem dono” pode remeter à ausência de propriedade privada, mas não ao vazio do território. O sertão tinha áreas marcadas por ocupações anteriores, mantidas por vínculos de permanência, uso e pertencimento. Embora Euclides da Cunha tenha feito da terra uma partícipe da luta, sua perspectiva republicana a submeteu a um determinismo mesológico hoje compreendido como racista, ao associar natureza, corpo e destino social em uma hierarquia entre civilização e atraso. Em uma leitura mais contemporânea de território, a noção de “rugosidade”, elaborada por Milton Santos para pensar os processos histórico-formativos dos espaços, permite compreender Canudos a partir das presenças, dos usos, das ruínas e dos apagamentos que nele se sedimentaram. O massacre, o dogma industrial e a zona de apagamento podem, assim, ser lidos como intervenções voltadas contra essa rugosidade, aproximando a experiência do arraial de outras territorialidades.
“Tudo o que está ali adiante é um cemitério vivo”³, explica João Travessia, descendente dos conselheiristas, diante do antigo Belo Monte, em entrevista a Odorico Tavares. Hoje coberta pelas águas da barragem de Cocorobó, construída a mando do governo Vargas, a antiga vila teve seus escombros submersos, o que impediu o acesso direto ao território e dificultou a revisitação arqueológica do artista. Embora sua localização atual só possa ser indicada de modo aproximado, a área ainda pode ser avistada ao sul, no Morro da Favela, de onde Igor registrou a paisagem entre 2019 e 2026 e onde o Exército se posicionou, entre 1896 e 1897, para bombardear Belo Monte com a artilharia Krupp – mas também de onde os soldados, alforriados pelo Exército, levaram consigo o nome para o atual Morro da Providência, no Rio de Janeiro, onde se instalaram depois da falsa promessa de moradia. Logo, “favela” passou a designar outras ocupações brasileiras marcadas pela geografia da exclusão, por continuidades históricas de opressão.
Não há beleza possível no extermínio. Mas há, talvez, uma poética mínima naquilo que insiste em sobreviver a ele e no que a pesquisa de Igor Vidor se agarra. A imagem dos povos-vaga-lumes se aproxima desse afago, quando “fazem o impossível para afirmar seus desejos, emitir seus próprios lampejos e dirigi-los a outros”⁴. Como a flor da favela, que atravessa ciclos de absorção e conservação até voltar a recobrir o sertão árido, são também esses espaços de revisitação que permitem a contemplação de sua memória: no Parque Estadual de Canudos, no Memorial Antônio Conselheiro, no Instituto Popular Memorial de Canudos, no Museu João Régis e no Museu de Vó Izabel.
Notas:
¹ CUNHA, 2014, p. 42.
² CUNHA, 2014, p. 54.
³ TAVARES, 1993, p. 42.
4 DIDI-HUBERMAN, 2011, p. 155.
Bibliografia:
TAVARES, Odorico. Canudos: 50 Anos Depois. Salvador: Conselho Estadual de Cultura; Academia de Letras da Bahia; Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1993.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro/Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2014. 623 p. (Biblioteca Básica Brasileira, vol. 24).
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4. ed. São Paulo: Edusp, 2006.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos Vaga-Lumes. Tradução de Vera Casa Nova e Márcia Arbex. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
COSTA, Carla. “Cronologia resumida da Guerra de Canudos”. Museu da República, Ibram/MinC, out. 2017. Disponível em: https://museudarepublica.museus.gov.br/wp-content/uploads/2017/10/CronoCanudos.pdf. Acesso em: 14 jun. 2026.