Paisagem temática para um novo normal
29.08-31.10.2026

Paisagem temática para um novo normal

Daniel Acosta 29.08-31.10.2026
Texto Crítico: Agnaldo Farias

A julgar pela paisagem montada por Daniel Acosta na nova sala da Galeria Verve, como a outra também na sobreloja do Edificio Louvre, as coisas não estão bem. Daniel, circulando entre arte, design e arquitetura, sempre destilou uma cálida ironia com os achados otimistas destas duas últimas disciplinas e seus princípios utilitários determinantes, empregando materiais como as flores e arbustos de plástico que os chineses levaram a um nível inaudito de acabamento, digno da atenção dos botânicos em suas ânsias classificatórias, e a fórmica, ah a fórmica, que material! Com seus verdes, rosas, azuis e amarelos suaves ornamentando os balcões, mesas e cadeiras dos restaurantes e botecos dos anos mil novecentos e sessenta, aparentando-os com as tonalidades pastéis das construções do Distrito Art Deco, de Miami, uma das matrizes de divulgação do american way life como estado permanente de férias a beira-mar.  Daniel e seu imenso prazer em descobrir folhas de formica que simulam madeira e seu veios. Parece se perguntar porque diabo um laminado feito de camadas de papel e resina, submetido a alta pressão, precisa disfarçar sua artificialidade.

Daniel Acosta frequenta design e arquitetura, indiferente entre o que é o que não é funcional. Para gente afinada com o pensamento do grande e irascível Richard Serra, para quem a diferença entre arte e arquitetura era que a primeira não podia ter utilidade, Daniel ousa meter dobradiças entre esses termos, basculando-os. Produz casas nas quais não se pode entrar (é um estudioso de arquitetura excepcionais, estações instaladas em climas inóspitos, como as bases na Antártida), piscinas secas e azuis de formato orgânico, jorros d’água construídos como signos de jorros d’água, construções totêmicas semelhantes a floreiras repletas de avencas e samambaias sintéticas. Daniel junta às cores oferecidas pela indústria de revestimento, às luzes de neon de tonalidades estrídulas. Além de cores, explora os ornamentos, outro anátema dos puristas de extração moderna: volutas, marchetarias, estampas e paisagens de matizes ferozes. Todos esses elementos compõem seus relevos de parede, bancos, namoradeiras, estantes e biombos, os pequenos espaços onde as pessoas podem se sentar, conversar ou apenas deixarem-se enlevar pelas soluções construtivas compostas por formas combinadas entre si, encaixadas, articuladas, arranjadas em ritmos divergentes.

Os trabalhos de Daniel Acosta sempre exalaram um certo otimismo, uma réstia de esperança num mundo cujo avanço em direção ao artifício é, no mínimo, temeroso. Ele prosseguiu em frente deixando alguma alegria, talvez alegria, como os relevos de madeira recortada em cujas bordas circulares saltam círculos -de fórmica- coloridos. Ao menos até agora.    

A parede frontal da sala reservada a exposição  de Daniel Acosta é totalmente de vidro, o que a converte num diorama, essas representações tridimensionais no geral ultrarrealistas de paisagens, assentamentos humanos, grupo de animais, cenas históricas etc, comuns em museus de História Natural. Uma casa ocupa o centro da paisagem proposta por Daniel, uma casa arquetípica, simples, feita de madeira, com telhado de duas águas e fachada reduzida a um quadrado encimado por um triângulo.

Dispersos ao redor da casa algumas pedras, matacões, blocos arruinados? Nas paredes laterais e na parede do fundo, formas compostas por círculos menores e maiores pintadas de azul. Nuvens?

Daniel Acosta é um proponente de enigmas. Muito do que faz sugere ser outra coisa, eventualmente muitas outras coisas. Dessa vez não é diferente. Caminhando entre as pedras vê-se que são blocos vazados rústicos, ordinários, que um dia foram parte de alguma construção, o que se deduz pela presença do cimento fixando cacos de bloco uns aos outros. Foram destruídos pela ação do mar avançando pela praia, como se dá na praia do Cassino, alguns quilômetros de Porto Alegre, onde vive o artista? São despojos da ação dos rios, animados por enchentes e correntezas avassaladoras, ou ainda restos de algo posto abaixo a marretadas?

As “nuvens” azuis nas paredes possuem a mesma matéria das grades com que cercamos nossas casas e vedamos as janelas. Houve um tempo em que as janelas e portas eram as membranas de acesso e regresso do espaço exterior. Hoje, ao projetá-las em atendimento a nossa insegurança crônica, emprestamos a elas predicados ornamentais, estratégia para amenizar nosso instinto de defesa, nosso agressivo instinto de defesa, a cada dia mais e mais atiçado.

A volta ao redor da casa, tendo-a inevitavelmente como centro da cena, dá a perceber por inteiro seu comportamento incongruente. A casa arquetípica, uma das sementes de todas as casas, está se desfazendo. Os feixes de madeira que compõem suas paredes e telhado ultrapassam os limites de suas arestas no sentido anti-horário, sob efeito de um vórtice turbilhonante, como o vento ao sul da praia de Cassino -“a praia mais comprida do mundo”, como orgulhosamente declaram seus moradores-, já perto do Uruguai, onde é dificil morar, pois o vento destrói tudo, como a água que vem arrasando o Sul do Brasil, protagonista da queda da barreira de Brumadinho, da enchente que nesta semana fez submergir na lama as cidades situadas abaixo do Nepal.

Algumas palavras sobre essa casa que nos lembrar a mítica e única casa que Le Corbusier fez para si, em 1951. Conhecida pelo nome de Cabanon, feita de toras de madeira, foi construída pelo arquiteto para ser utilizada em suas férias, como sucedeu ao longo de 14 anos. Cabanon é o diminutivo francês de cabine, o que dá a medida da reviravolta deste homem responsável pela ideia da casa como máquina de morar, por reforçar o binômio arquitetura-urbanismo, ardoroso defensor dos arranha-céus e do concreto aparente. Concebeu para si uma casa semelhante aos abrigos dos pastores franceses, uma habitação primeva, reduzida ao estrito, recuada aos primórdios da arquitetura.

Daniel Acosta é cheio de sutilezas: a casa desta exposição lembra que o Cabanon de Le Corbusier tem um poderoso precedente: a casa que Henry David Thoreau, o polímata norte-americano cultuado pelos anarquistas, por Leon Tolstoy e Mahatama Gandhi, autor do celebrado manifesto a favor da desobediência civil (1849), construiu quando decidiu embrenhar-se no mato, rumo à pureza –simplicidade, simplicidade, simplicidade!-, fugir da vida urbana, do avanço tecnológico, fixando-se às margens do Lago Walden, no estado de Massachusetts, EUA. E se o Cabanon de Le Corbusier emula a casa reduzida ao espaço e o mobiliário escasso, elementar, de Thoreau, segue-se uma outra casa nessa direção, muito mais próxima de nós: a casa que Theodore John Kaczynski, construiu para viver em 1971, no município de Lincoln, no estado de Montana, EUA, idêntica na forma a de Thoreau, embora um pouco menor, sem eletricidade e água corrente. Kaczynsk, matemático genial, Q.I. 167, anarquista, defensor da natureza como Thoreau, transtornado com a destruição da floresta ao seu redor, a proliferação de projetos imobiliários e industriais, transformou-se no famoso terrorista conhecido como Unabomber, enviava cartas que explodiam, responsável pela morte de 3 pessoas e pelo ferimento de 23 outras. Ele atuou por 18 anos, de 1978 à 1996, caçado em vão pelo FBI, mesmo quando decidiu que pararia com os atentados desde que o New York Times e o The Washington Post publicassem um manifesto de 35 mil palavras, A sociedade industrial e seu futuro. Os jornais demoraram 3 meses para se decidir se publicavam, renderam-se e foi isso que entregou o crimonoso: seu irmão David reconheceu-lhe o estilo, os argumentos e o entregou.

A casa do Unabomber está preservada num depósito do FBI e não está aberta à visitação, mas uma réplica sua feita de papel pode ser comprada na internet, segundo um anúncio publicitário que a recomenda como Perfeita para a decoração do seu lar!

A casa de Daniel Acosta é uma versão reduzida das casas de Thoreau e Kacynsk. A descoberta dele, convenhamos, é extraordinária, embora não se saiba o que ela quer dizer. Quem saberá? Sabemos, isso sim, que eles três, Le Corbusier merece ser incluído, buscavam um refugio na natureza, o mais discreto e ínfimo possível. Thoreau não viveu para ver seu espaço, quase o pouco espaço que seu corpo necessitava, ser assediado pela civilização cujos rumos ele previa intoleráveis. Le Corbusier, arauto dessa mesma civilização, precisava se recolher periodicamente. Kacynsk difundiu sua mensagem com tentáculos assassinos.

Daniel Acosta pensa essa coincidência apresentando uma paisagem feita de despojos de objetos e signos, uma paisagem composta de madeira, pedra e metal, desagregando-se a partir de um refúgio reduzido ao mínimo, sob o impacto de uma força centrifuga irresistível.

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