Tales Frey

Tales Frey

n. Catanduva, SP (1982)

Tales Frey é artista transdisciplinar que vive e trabalha entre o Brasil e Portugal. Realiza obras amparadas tanto pelas artes visuais como cênicas. Tem o corpo como pivô de suas concepções artísticas e, recorrentemente, por meio do seu tecido externo (da própria pele ou de outro material colocado sobre ela), analisa códigos existentes entre o indivíduo e o indumento.

Atualmente, integra o programa de pós-doutoramento do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho, com doutorado em Estudos Teatrais e Performativos pela Universidade de Coimbra, mestrado em Estudos Artísticos pela Universidade do Porto, especialização em Práticas Artísticas contemporâneas pela mesma instituição, e graduação em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O artista apresentou-se e participou de exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior, e seus trabalhos integram os acervos permanentes do Museu Serralves (Porto, Portugal), do Museu Bienal de Cerveira (Vila Nova de Cerveira, Portugal), do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM RJ), do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP), do Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC Niterói) e do Museo de la Universidad Nacional de Tres de Febrero (Buenos Aires, Argentina).

"O QUE PODE UM CORPO?", Por Pollyana Quintella, 2021

Um corpo não é feito só de carne e osso. Nem mesmo só de matéria. Misto de máquina e instrumento, prótese e laboratório de experimentação, ele é sobretudo um conjunto de códigos, signos, imagens, tecnologias, protocolos e propriedades. Uma festa e um campo de batalha. Como nos ensina Paul Preciado, nosso corpo é um texto socialmente construído, e é através desse elemento sempre em disputa que o poder político se impõe.

É nessa direção que a obra de Tales Frey se trama. Estamos diante de uma pesquisa interessada em desafiar as convenções do corpo biomorfológico hetero-patriarcal, na busca de um organismo mais híbrido, de matéria elástica e formas múltiplas e transitórias. Não é raro identificarmos em seus trabalhos alguns procedimentos que profanam o corpo através de espelhamentos, duplicações e multiplicações, transformando-o temporariamente num dispositivo estranho e menos reconhecível, menos pautado por estigmas, padrões sociais e expectativas pré-estabelecidas. Tales joga ainda confundindo as marcas do feminino e do masculino, suspendendo a suposta naturalidade do contrato sexo/gênero, ao propor experimentações que chacoalham os signos convencionais como o vestido de noiva, o salto alto, o tule e outras vestimentas consideradas “coisas de mulher”, ou o terno e o sapato social, considerados “coisas de homem”. Suas ações questionam o binarismo como chave de leitura para o corpo social.

A radicalização desse gesto nos leva às obras mais interativas, que convidam o público a experimentar diferentes situações que exigem uma negociação de diferenças, situando o trabalho como um terreno democrático por excelência. O artista tem explorado o conceito de indumento, ao configurar dispositivos que funcionam como uma pele que conecta um corpo ao outro. São peças como luvas de boxe, roupas, tecidos elásticos e pares de sapatos que demandam que os participantes estabeleçam acordos diversos entre desejo e movimento, o que nos faz lembrar de certa tradição relacional da arte brasileira, interessada no binômio arte/vida. Interessa-me chamar essas obras de esculturas sociais, já que tensionam o individual e o coletivo; o pessoal e o político. Nessas operações, a relação eu-outro não é estável, mas intercambiável. Se não há consenso que reste, o trabalho pode ser o lugar de coexistência dos dissensos. Aliás, no Brasil de 2021, talvez seja esse o desafio mais latente para todos nós.

Mas resta algo mais. Ao olhar para essas obras, também constatamos que toda identidade é construída em contraste com uma alteridade, um outro de quem nos diferenciamos. Só somos algo em relação a um referente, o que significa que somos muitos, na medida em que mudam os nossos contextos. A estrutura de um corpo é a composição da sua relação; e a possibilidade de reconhecer a identidade como uma dança das cadeiras nos habilita a perseguir uma subjetividade menos subordinada às coerções sociais. Creio que reside aí a potência do trabalho de Tales Frey: reivindicar o sujeito como construção ficcional para compreendê-lo também (e necessariamente) como objeto. É nessa dupla condição que poderemos exercitar a nós mesmos como plataformas singulares, migrantes e transitórias — formas abertas, como a própria matéria da vida.