Animal Ferido; Texto Crítico de Carollina Lauriano
12.11.2022-22.01.2023

Animal Ferido; Texto Crítico de Carollina Lauriano

Igor Vidor 12.11.2022-22.01.2023
"Animal Ferido", por Carollina Lauriano

Duas semanas após as eleições mais decisivas para a manutenção de um Estado democrático brasileiro, observamos nesse processo uma série de disputas narrativas fundamentadas em uma estratégia de esvaziamento da voz da oposição e uma radicalização de discurso autoritário e segregacionista, amplamente baseadas em uma agenda comportamental que envolve uma ampla e estruturada rede de notícias falsas e imagens e símbolos deslocados de seu contexto que, ao serem compartilhadas à exaustão, reafirmam a ideia de uma democracia polarizada cujas narrativas estão em disputa a todo momento.

Embora Animal Ferido, primeira individual de Igor Vidor na Verve, não se endereça a tecer comentários diretos sobre como a extrema direita tomou o país de assalto, criando resultados desastrosos para a sociedade brasileira como um todo – e com desdobramentos desafiadores para as próximas décadas; a exposição apresenta caminhos para compreender os perigos de uma história única que, em um primeiro momento se apresenta como tragédia, e depois como farsa.

Para tal, Vidor se vale de uma série de construções que vão buscar na própria história do Brasil, símbolos que denotam uma cooptação narrativa para manutenção do poder e dos privilégios coloniais, que até hoje regem as relações políticas e econômicas no país. No entanto, a exposição começa a se estruturar a partir de estudos do artista sobre a Guerra de Canudos, e como as raízes desse embate possuem semelhanças com campos de disputa na nossa sociedade contemporânea. Vale lembrar que o município localizado no interior da Bahia, Canudos foi palco de um dos maiores conflitos sociais envolvendo a luta armada das populações pobres pela posse da terra, um campo fértil de disputas ideológicas entre propriedade privada, vulnerabilidade social, forças armadas do governo e fanatismo religioso.

Dessa forma, Animal Ferido vai construindo uma analogia entre a história recente do país e suas origens calcadas na violência oriunda dos primeiros eventos que constituíram o Brasil República, criando representações alegóricas da flora e fauna que foram simbolicamente cooptadas pelas instituições que detém o monopólio da força no país. E a primeira representação desses atos está logo na entrada da exposição. Uma cortina instalada na entrada da galeria, ao mesmo tempo que apresenta uma leve transparência revelando parte do interior do espaço, também obstrui o acesso completo do conteúdo que está sendo apresentado, o que podemos considerar uma representação poética da própria noção de como a história brasileira nos foi e ainda é contada, como um borrão que não apresenta fatos importantes para estabelecermos outras perspectivas dos fatos.

Retomando Canudos, Vidor faz uma viagem ao município a fim de refazer um percurso histórico que origina outro palco de disputa atual e, que, de certo modo estabelece uma relação com parte de sua biografia recente e os atos de violência que o fizeram deixar o país. Como talvez poucos saibam, as favelas têm suas origens na guerra que dizimou brutalmente cerca de 25 mil pessoas durante o considerado o primeiro grande ato militar da Primeira República. Favela é o nome dado a um arbusto encontrado no sertão e que também passará a chamar o local o qual soldados combatentes do exército foram viver após seu retorno da guerra para o Rio de Janeiro.

Com a promessa de ganho de moradia pelo seu trabalho servindo a nação, tais soldados se viram com a promessa quebrada, foi então que essa população sem moradia se estabeleceu nos arredores de uma guarnição de exército, onde hoje é o Morro da Providência, marco zero desse tipo de formação urbana no Brasil. Situado entre Gamboa e Santo Cristo, o território recebe esse nome por possuir uma vegetação semelhante ao faveleiro e também pelas condições geográficas próximas ao local onde os combatentes se alojaram em Canudos. Segundo levantamento de dados produzidos pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio de janeiro, no ano de 2021, cerca de mil pessoas foram dizimadas em ações policiais nas comunidades da cidade, realidade que nos faz pensar que as disputas ideológicas e de poder estabelecidas em Canudos seguem vivas até hoje.

Ainda sobre a cortina, ali estão impressos elementos que compõem a árvore de favela. Nela, folhas, frutos, flores e sementes estão desenhados como nos desenhos de botânica que foram registrados, especialmente, em expedições naturalistas do século XIX, e que depois foram institucionalizadas no governo de Getúlio Vargas como fonte de exploração das fontes naturais do Nordeste entre os anos 1933 e 1968, período de atuação do Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas no Brasil (CFEACB).

Adentrando a sala expositiva, três conjuntos de trabalhos reafirmam tal discurso da exploração como produção de vulnerabilidades, seja da própria natureza, seja de uma população carente de recursos e a manutenção de um sistema opressor. A série Alegoria do Terror apresenta três colagens em grande formato. Combinando uma série de elementos que, ora retomam marcos históricos, ora apresentam símbolos que reafirmam a força e/ou a violência institucionalizada em diversas instâncias de governo e sociedade, formando um conglomerado de imagens que, ao mesmo tempo que estão cheias de significado e capital simbólico, também encontram-se esvaziadas de sentido quando deslocadas de seu contexto original; esse último pode ser colocado em paralelo com estratégias adotadas pelo populismo como construção de uma narrativa totalitária e nacionalista.

Adicionando uma outra camada discursiva a série, as imagens foram impressas em fibra de aramida, material comumente conhecido por ser responsável pela blindagem de carros. Nesse caso, Vidor tenciona como um próprio local produz violência e as próprias ferramentas de defesa para elas, direcionando o discurso de como o norte global – aqui em especial a Alemanha, que também é fornecedora de armamentos que acabam desembocando em países da América Latina, abastecendo milícias e facções criminosas – é responsável pelo fomento da violência do sul global, criando um ciclo vicioso de manutenção de poderes.

E esse discurso está presente em outras duas esculturas que fazem parte da exposição. Cópula Cloaca é uma escultura que une dois aviões da Força Aérea Brasileira sob uma base que alude a papelotes de cocaína. Ambos aviões são réplicas das aeronaves da força aérea que estiveram envolvidos em denúncias de transporte da droga para a Europa. Já em A Serpe (Ovo da Serpente), Vidor retoma sua pesquisa sobre autoprodução de imagens. Na tragédia Júlio César, de Shakespeare, ao aderir à conspiração contra o ditador Júlio César, Brutus o compara a “um ovo de serpente, que, uma vez chocado, por sua natureza, se tornará nocivo, razão pela qual deve ser morto quando ainda na casca”. No Brasil, o ovo da serpente retoma com a ascensão do fascismo no Brasil, o discurso inflamado da extrema direita que levou à construção de um comportamento nacionalista criado por ela frente aos desgastes políticos que levaram ao golpe e suas consequências.

Por fim, Vidor convida dois outros artistas para integrar a mostra, Silvio De Camillis Borges e Gilson Plano, adicionando novas camadas de complexidade para a exposição. Se nos trabalhos de Vidor há uma busca pela nitidez dessas imagens borradas pela história, os desenhos de Silvio parecem trilhar um caminho contrário. Se toda fauna evocada por Vidor possuem um teor de bestialidade, as obras de Silvio trazem uma complacência para esses animais, quase um gesto de delicadeza como se ele devolvesse a eles seu lugar de pertencimento.

Se na abordagem de Vidor, a vulnerabilidade está associada à cooptação, me parece que para Sílvio o mesmo termo significa força e potência. Em outro aspecto, Meridianos de Gilson Plano também atua nessa mediação. O couro animal perpassado por agulhas e vergalhões exibem as cicatrizes de uma pele em disputa, seja a própria discussão do espaço do agronegócio na economia nacional, ou mesmo um corpo negro à margem, e aqui retomamos tanto as favelas, quanto as animalidades que esses corpos estão sujeitos desde o período da escravidão. Ainda sobre os atravessamentos e complexidades existentes nas esferas e campos de poder e violência que estruturam a formação do Brasil, e que perpassam o trabalho de Vidor e Gilson, a obra Dois Campos consiste em um comentário invisível, porém extremamente simbólico, de como essas violências institucionais ocorrem. Na obra de Gilson, foram projetados furos na parede da galeria, que foram preenchidos tanto com sementes de favela, trazidas de Canudos por Igor, quanto com elipses de chumbo, em um processo de reafirmar as cicatrizes causadas por essas animalidades. As marcas que lembram diariamente certos corpos que as feridas que estão, ao mesmo tempo em processo de cicatrização, ainda continuam sangrando.

Embora Animal Ferido traga todas essas camadas de complexidade sobre a construção da nossa história e como ela está o tempo todo sendo manipulada para manutenção de poderes, o título também alude a um sopro de futuro o qual precisamos urgentemente cicatrizar feridas, por mais que elas permaneçam ali para nos lembrar de todas acontecimentos. Se a tentativa da escassez ainda prevalece como uma narrativa vigente, olhemos para as sementes da favela como potência de ressignificar espaços, mesmo que esses ainda carreguem marcas de violência, porque um dia o sertão há de virar mar.

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