O Inquietante; Texto crítico de Agnese Fabbiani e Ian Duarte Lucas
07.06-28.07.2018

O Inquietante; Texto crítico de Agnese Fabbiani e Ian Duarte Lucas

Farnese de Andrade, Flávio Cerqueira, Francisco Hurtz, Luciano Zanette, Luc Dubois, Monica Piloni, Tomoshige Kuzuno, Walmor Corrêa, Wesley Duke Lee 07.06-28.07.2018
"O Inquietante", por Agnese Fabbiani e Ian Duarte Lucas

É uma característica essencialmente humana deixar-se tocar pelo não familiar. De natureza ambígua, no despertar de nossas mais profundas inquietações, não raro o assombro é substituído pela mais irresistível atração. Encontra-se aí a gênese de nosso incômodo: a inquietação diante do sombrio que se revela em nós mesmos.

Estudado à fundo pela psicanálise, o assunto encontra em ”O Inquietante”, texto homônimo de Sigmund Freud publicado em 1919, sua mais ampla discussão. O ensaio discorre sobre os possíveis encontros com o estranho, situações em que somos confrontados com algo que um dia conhecemos e por algum motivo foi deixado oculto. Para Freud, a ficção e as artes se apresentam como meios para promover este reencontro,  no momento em que as fronteiras entre a realidade e a fantasia se apagam. No título original em alemão, “Das Unheimliche”- que não encontra tradução equivalente na língua portuguesa – o termo se refere ao “lar” e a“segredo” simultaneamente, ressaltando seu caráter ambivalente. Esta conhecida sensação do “estranhamente familiar” se instalaria justamente a partir deste estado de incerteza intelectual.

Quem já não se espantou com objetos inanimados que passam a impressão de que poderiam ser dotados de vida autônoma? Ou ainda com o silêncio das máscaras, que em suas profundezas parecem comunicar as mais monstruosas mensagens? E a conflituosa relação com o espelho, nosso “duplo”,  no embate entre a afirmação e o questionamento da imagem que fazemos de nós mesmos? Por fim, a diluição da divisa entre os gêneros, fronteira última da discussão contemporânea e ainda causadora de profundo incômodo. Em todo caso, é certo afirmar que são todas experiências estéticas que nos capturam – seja por sua temática ou os materiais e superfícies empregados – com toda a força de atração que o território do não-familiar exerce, um mal-estar que nasce de uma ruptura na racionalidade tranquilizadora da vida cotidiana.

Este não é um tema novo, esteve presente ao longo de toda a História da Arte: desde as bizarras cenas de Hieronymus Bosch ao Surrealismo, que encontrou embasamento teórico no repertório de imagens reprimidas enquanto expressão do inconsciente, dos sonhos e de outras inúmeras teorias freudianas relativas ao medo da castração, aos fetiches e ao sinistro.

A proposta desta exposição coletiva é a de fazer um recorte histórico a fim de investigar paralelos a estes diversos processos nas artes visuais, importante exercício em um mundo de relações massificadas e padronizadas – mesmo em um contexto marcado por conflitos e polarizações. Para além do idealismo e da metafísica, a obra de arte pode interiorizar estes conflitos e elaborá-los como experiência estética. Ao provocar transtornos de percepção e perturbações através do choque, evoca o necessário estranhamento que deve nortear as condições de percepção da realidade, uma vez que ela é em si antagônica em sua essência, marcada por impasses não resolvidos que se potencializam constantemente.

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