A República; Texto crítico de João Silvério Trevisan
01.10-01.11.2022

A República; Texto crítico de João Silvério Trevisan

Francisco Hurtz 01.10-01.11.2022
"Metralhadoras em estado de graça"; por João Silvério Trevisan

O que me encantou logo de cara, ao conhecer a obra de Francisco Hurtz, foi a selvageria contida em suas linhas simples, essenciais. E pensei que esse sentimento me era familiar. Gauguin tinha algo assim, mutatis mutandis. Mas há nas linhas despojadas de Hurtz uma conotação que o distancia da suposta inocência dos traços pós impressionistas do francês: a sexualidade explosiva. Não que seja explosiva para fora dos parâmetros da obra, mas implosivamente, penso. A obra de Hurtz implode-se como uma granada lançada ao mar do nada interior, onde provoca abalos quase inomináveis. A gente sabe de onde vem o golpe, mas não consegue descrevê-lo. Seria isso pulsão de morte? Absolutamente não. É pulsão sexual, fruto de pura realidade. Então vem a revelação: há sim uma inocência na obra de Francisco Hurtz, mas ao contrário. Em Gauguin a inocência é forjada, nos corpos colonizados pelo olhar do artista francês. Aqui, há uma inocência brasileira em estado bruto. Trata-se, a meu ver, da inocência que conhece como toda radicalidade é mortal. A morte se apresenta em sua obra com uma afirmação de inocência, todo o contrário da morbidez tanática. Estamos longe da arminha, ou seja, a brincadeirinha de bandido e mocinho na cabeça oca de quem chafurda em infantilismo político – e se julga imbatível. Nestas obras de Hurtz, armas são armas. Nem para assustar, nem para fazer pose. São claros objetos com nostalgia do sexo.

Aqui, corpos nus masculinos cruzam gestos com armas que cospem balas, mas poderiam cuspir porra. Há uma forte tensão sexual, próxima do cinema de David Cronenberg, especialmente quando se encontra com o romance de J. G. Ballard em Crash. Lá ocorria orgasmo só possível na mutilação, em que pedaços de aço dos carros se misturavam aos corpos em pedaços colados. Aqui em Francisco Hurz o que se constata é o prazer crítico e mordaz de pernas metálicas como extensão de armas. A força das armas é multiplicada pelos membros mecânicos dos homens. A força fálica dos aparatos de matar se transfere às próteses sexualmente tensionadas. Mas, ainda assim, não há morbidez, mesmo quando impulsionadora da libido, como em Cronenberg/Ballard. Longe das arminhas de brincadeira idiota, por serem idiotamente fálicas, aqui as armas tomam seu lugar nos corpos e se intercambiam, simbolicamente, como novos falos. Homens nus se olham ou se mostram. Estão inteiramente ali, parados, em sua mudez persistente. Tanto a autocontemplação quanto o exibicionismo nada têm de eroticamente posados: são gestos e olhares carregados de libido por sua inocência. Mas há também cenas do crime. Os homens armados, às vezes com suas próteses, às vezes sem, nada têm de modelos de beleza. São comuns das periferias, usam sandálias havaianas e calções largados, ou militares uniformizados revelando-se de calças baixadas. Se estão nus, não parecem preocupados em parecer o que não são. Mesmo quando eretos, seus falos exalam inocência, como se constatassem: “Olhaqui eu e meu pinto”. A força crítica das obras desta exposição fala de corpos que SÃO. Esses corpos vivem em estado de exílio, muitas vezes assombrados por cenas de crime que pervadem o imaginário de quem anda na contramão da heteronormatividade e sabe da violência subjacente num tempo de ressentimento que se instalou no poder – para promover o ódio. Apesar disso, esses corpos SÃO.

Em resumo, aí se encontra o elemento contemporâneo de resistência: no ARTivismo queer. Francisco Hurtz não esconde que faz ativismo, e seu ativismo se desdobra, para além da denúncia, em arte e celebração que afirmam. Então chegamos ao cerne da questão: a Resistência é poética. E a Poesia, por sua vez, tem um componente brutal de Resistência. Esses são para mim sentimentos familiares. Não há fronteiras para a expressão poética. Se a Poesia nestas obras é selvagem, ela em nada destoa da violência que é intrínseca à Poesia. Porque toda Poesia nos assusta e nos mobiliza, por sua capacidade de revelação. Poesia é Epifania em estado puro, como granada lançada no mar do nada interior. Está contida no grito primal do poeta Roberto Piva: “Eu sou uma metralhadora em estado de graça.” Em Francisco Hurtz, nossos corpos são nossos, com tudo a que eles têm direito sobre nós e nós sobre eles. Por sua inocência, por sua pulsão de vida, o que sua obra nos conta, com absoluta convicção, é que o Cu também é Poesia.

Abram alas aos corpos e seus cus. E viva Roberto Piva!

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