Estatísticas do Caos
04.04-06.06.2026

Estatísticas do Caos

Marco Paulo Rolla 04.04-06.06.2026
Texto Crítico: Marina Schiesari

Situar a trajetória de Marco Paulo Rolla exige reconhecer a multindisciplinaridade como princípio estruturante de sua prática artística. Amplamente propagado por ele, o conceito sustenta um fazer artístico livre de formatações, voltado à integração de saberes e ao estímulo da expressividade da matéria. Nessa relação, estabelecida ao longo dos últimos 40 anos, ele se reconhece e é reconhecido como um artista intrinsecamente ligado à experimentação.

Anterior ao seu percurso formal nas artes, Rolla transitava por diversas linguagens: apresentações de piano, improvisações cênico-vocais com a companhia Estupefato, filmagens dadaístas em superoito, desenhos com giz pastel e colagens em papelão exibidas em seus primeiros salões. Com sua entrada no ambiente acadêmico, ele deparou com essas práticas coexistentes cindidas pelos cursos e suas disciplinas sob o regime da compartimentação dos saberes, já que a própria noção de “disciplina” remete a um modelo instituído e ainda atravessado por resquícios do léxico militar. Em contraponto a essa fragmentação, Rolla passou a abraçar, tanto na prática quanto no ensino, um “inconsciente inteligente”1 , capaz de articular experiências e gestos em um fluxo contínuo de pesquisa.

Um exemplo determinante de como rotina e criação se articulam aparece quando Rolla, ainda criança, encenou diante dos colegas o momento do desjejum. O gesto de “tomar a xícara, pousá-la à mesa e olhar para a próxima garfada” permanece em sua memória, rente à lógica do espetáculo. Mais tarde, em 2001, essa mesma sequência reapareceu como subsídio para a performance Café da Manhã. Nela, o artista retomou movimentos naturalizados por um regime de ordenação e os conduziu a um espasmo, desmontando o automatismo da cena.

Acordar, comer, trabalhar, ganhar dinheiro, dormir e repetir tais tarefas sintetizam a sequência ordinária do indivíduo capitalizado. Ao suspender uma dessas ações, o artista introduz um “defeito” na engrenagem e, diante disso, a estranheza da interrupção converte o desgaste em um momento para a reflexão crítica. Cabe, aqui, o paradoxo de John Cage2: “Não tenho nada a dizer e estou dizendo”, em que o aparente esvaziamento da ação é justamente o que torna legível sua estrutura. Assim, a visualidade, em Marco Paulo, configura-se então inseparável da densidade formal e conceitual de sua prática.

Pensada como uma equação, a pesquisa de Rolla reúne a fragilidade humana à dependência de normas, dispositivos e hábitos e os meios empregados para materializar essa fricção. Embora assumam formas distintas, suas obras convergem para um efeito corrosivo: apontar os mecanismos de poder por trás da banalidade. Esse efeito é intensificado nas produções realizadas entre 2006 e 2025, nas quais são exacerbadas em pinturas e esculturas as “operações calculadas” de representação do ambiente de trabalho, movido pela autoviolência da produtividade maximizada3. Com o uso das linguagens clássicas, pictórica e escultórica, Rolla encontra um contraponto à performance para mostrar uma desordem igualmente alastrada pela história canônica das artes.

Não é monótono nem inocente o modo como as obras do artista figuram a transição entre uma educação disciplinada para a sociedade do desempenho. Os cadernos, móveis e ternos, presentes nas pinturas de grande formato, remetem a um espaço de trabalho compartilhado, rigidamente demarcado por horários de entrada e saída, próprio à formação e descontração do cidadão exemplar. Os celulares, computadores e televisores, somados às vestimentas informais e aos contextos urbanos, tornam-se, nas pinturas de pequeno formato, índices desse mesmo imperativo, agora flexibilizado e disperso, em que a aparente liberdade contemporânea se converte em uma forma de autoexploração mais sutil e, por isso, mais eficaz e dominante do que os mecanismos tradicionais de controle.

Corpos posicionados diante das telas exibem uma indiferença que contrasta com a intensidade expressiva de quem trabalha conjuntamente. Sob a lógica da mobilidade das estações laborais, favorecida pela digitalização, erguem-se baias cada vez mais fragmentadas e isoladas. Assim, os vínculos se virtualizam por meio do dispositivo intermediário, estreitando os canais de controle. Utensílios, máquinas e móveis já não funcionam apenas como instrumentos a serviço do corpo moderno, mas sim como
instâncias que o prolongam, o conformam e, por vezes, tornam indecidíveis seus contornos. Nessa mútua implicação entre sujeito e objeto é que as esculturas levam adiante o desastre anunciado: o colapso das fronteiras entre corpo e instrumento.

Retomando o “teatro do vazio”, destacado por Raphael Fonseca quando essas obras foram expostas em Belo Horizonte, na mostra Contrapontos e Contratempos, importa observar o efeito desse regime de atenção rarefeita. “Não há espaço nessas narrativas para fitar o espectador ou olhar para qualquer outra área dentro dessas imagens que não sejam as telas brilhantes”4, sedutoras por suas promessas de totalidade pós-moderna. Nesse cenário, a multindisciplinaridade se afirma com maior potência, atravessada pela velocidade, pela perda de contorno entre sujeito e objeto e pela dispersão dos estímulos sensoriais, a ponto de insinuar, ainda que de modo instável, outras formas de compartilhamento diante do enfraquecimento dos vínculos.

Avessa a um discurso moralizante ou conclusivo, a exposição se sustenta como uma reflexão aberta, na qual Estatísticas do Caos condensa procedimentos centrais da pesquisa de Marco Paulo Rolla e os pluraliza em contato com a lógica do trabalho e a passagem da educação disciplinar à sociedade do desempenho, em sua forma mais calculada.

 

NOTAS
1 ROLLA, Marco Paulo. “O artista ‘multindisciplinar’!”. Revista Estado da Arte, Uberlândia, v. 4, n. 2, jul./dez. 2023. DOI: 10.14393/EdA-v4-n2-2023-71541.
2 CAGE, John. “Lecture on nothing”. In: CAGE, John. Silence: Lectures and Writings. Middletown: Wesleyan University Press, 1961, p. 109.
3 HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015, p. 23.
4 FONSECA, Raphael; ROLLA, Marco Paulo. Contrapontos e Contratempos: Marco Paulo Rolla. Belo Horizonte: Minas Tênis Clube, 2025, p. 6.

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