AREJAR OS MEIOS,
ESPALHAR OS FEIXES
Ante a sobrecarga visual contemporânea, Mauro Piva se volta às sutilezas que o cercam e, diante delas, encontra extensões de sua personalidade. Sem individualizá-las, ele produz para aproximar de si aquilo que também o une aos outros. Ao compartilhar essas experiências, reconhece, nesses excertos cotidianos, a importância da vastidão.
“Busco imagens que perguntam mais do que respondem”, reforça o artista quando incumbido de mostrar suas escolhas. Por não serem trabalhos extraídos fisicamente do dia a dia e deslocados para o espaço expositivo, ele os estuda minuciosamente para se tornarem peças esculpidas, moldadas, pintadas e texturizadas, até que seja quase nula a distinção entre aquilo que Piva elaborou e o que lhe serviu de inspiração. São obras por ele movidas para atingir o “afastamento para ver o que está perto”, e “fazer olhar” é o objetivo de tal esforço.
Piva exercita a sua percepção durante seus trajetos cotidianos e, nos últimos anos, passou a reparar nos líquens vermelhos dos troncos que o cercavam. Impressionado pela característica bioindicadora da boa qualidade do ar desses, o artista associou às marcas expressões como “ar puro”, “ar mais leve” e “ar calmo”, comumente usadas para se referir a ambientes, pessoas e situações.
A indefinição dessas sensações o motivou a transpor a presença do líquen a contextos domésticos e afetivos em que o bem-estar e a tranquilidade pudessem ser igualmente notados. Assim, ao fazê-lo, ele depara com a dificuldade de compor aquilo que, pela própria existência, não se deixa apreender.
Uma vez que o natural não é estático, retê-lo é o primeiro passo para artificializá-lo. A partir dessa compreensão, Piva recorre a formas reconhecíveis e situa o humano como o lócus em que natureza e cultura se encontram e, simultaneamente, como criador dessa dicotomia. Põe-se, como artista, a mediar as ambiguidades que habitam o próprio ser.
Em seus autorretratos impessoais, aquilo que Piva presenciou e não pôde inteiramente nomear se espalha por uma trama mais ampla de sensações e sujeitos. As constâncias nas suas obras decorrem dessa leitura, enquanto o uso recorrente do ortônimo nos títulos de suas exposições sustenta a coerência de sua pesquisa. Não por acaso, o sujeito em suas obras se constrói sem o protagonismo da própria figura, permitindo a identificação de muitas pessoas.
A sensibilidade para a qual Piva direciona o olhar destina à manualidade um contraponto ao regime imagético virtual estabelecido, e é nele que a sua autoria se afirma, principalmente pela virtuosidade técnica com que se relaciona com as referências endereçadas. A partir dessa via, o artista recupera a lógica artificial ao aplicar o “crop” da experiência pessoal em um enquadramento próximo àquele visto nas redes sociais.
Quando o afastamento da vida coletiva parece caracterizar o presente, no ambiente on-line torna-se ainda mais evidente quanto as individualidades se entrelaçam e se confundem. Nesse compartilhamento, o artista areja sua mundividência e a aproxima do cotidiano, como retratos de “onde e como as coisas estão como deveriam ser”.
Se o escape da realidade, para Piva, sempre esteve presente, nos feixes de luz a atravessarem sua janela e nas pétalas a marcarem as estações ele encontra existências inomináveis e inimitáveis. Sem lhes oferecer respostas nem as submeter a tentativas de precisão, resta-lhe a maior das delicadezas: apontar para aquilo que fazem sentir.